um universo para Laura Luísa

E se…

Entre devagar. A música toca em loop, as estrelas caem, e uma história começa a ecoar no infinito.

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era uma vez um futuro que ainda não aconteceu

E se…

Uma hipótese bonita. Um céu aberto. Uma casa cheia de vida. Três filhos, gatos, viagens, loucuras e uma varanda no fim da vida — tudo existindo por alguns minutos dentro da imaginação.

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Prólogo

Era uma vez…

A semente

Um “e se”.

Pequeno no começo, quase invisível, como uma semente caída entre duas pedras. Um “e se” que não fazia barulho, não exigia resposta, não puxava ninguém pelo braço. Apenas existia, quieto, respirando no canto mais delicado da imaginação.

Era uma vez um futuro que ainda não tinha acontecido.

E talvez por isso fosse tão bonito.

Porque os futuros mais bonitos não chegam gritando “sou seu destino”. Eles aparecem devagar, como uma luz entrando pela fresta da janela às seis da manhã, tocando primeiro a parede, depois o chão, depois o rosto de quem ainda está dormindo. Eles não invadem. Eles convidam.

E se, Laura Luísa, algum dia, em algum ponto dessa estrada absurda chamada vida, nós dois olhássemos para trás e percebêssemos que tudo começou de um jeito tão simples que quase parecia brincadeira?

Uma conversa. Uma risada. Uma curiosidade. Um cuidado escondido nas entrelinhas. Uma amizade recente, dessas que ainda estão aprendendo o tom da voz do outro, mas que às vezes carregam uma estranha sensação de já terem se cruzado em algum lugar que a memória não alcança.

E se, sem pressa, sem promessa exagerada, sem tentar prender o amanhã pela garganta, a vida apenas começasse a nos mostrar pequenas cenas?

Cenas que ainda não existem, mas que a imaginação consegue tocar.

Nós dois caminhando numa cidade desconhecida, rindo porque nos perdemos mesmo usando GPS. Você com aquele olhar de quem finge estar brava, mas entrega o sorriso antes da bronca terminar. Eu jurando que sabia o caminho, mesmo tendo virado duas ruas erradas e entrado num beco cheio de gatos, vasos de barro e uma senhora na janela olhando para nós como se já conhecesse o final da história.

O cheiro de café vindo de uma padaria antiga. Pão quente. Chuva fina batendo nas pedras da calçada. Seu cabelo com algumas gotinhas brilhando como pequenas estrelas teimosas. A cidade inteira parecendo uma aquarela molhada, e nós ali, sem saber se procurávamos o hotel ou se, no fundo, estávamos apenas descobrindo que algumas pessoas são mapas melhores que qualquer aplicativo.

E se, em uma dessas viagens, a gente criasse uma lista?

Não uma lista comum. Não uma lista de supermercado, não uma lista séria, não uma lista de metas perfeitas.

Uma lista de coisas loucas que faríamos uma única vez juntos.

Só uma vez.

Porque certas loucuras não precisam se repetir. Elas só precisam existir para provar que a alma ainda sabe correr descalça.

Pular de paraquedas, mesmo com o coração tentando fugir pela boca.

Dançar no meio de uma praça em outro país, sem música nenhuma, apenas porque alguém tocando violino na esquina errou uma nota e isso virou o nosso sinal.

Entrar no mar de roupa, numa noite quente, e depois voltar rindo como duas crianças criminosas, culpadas apenas de terem vivido demais.

Comprar uma passagem sem pensar tanto, escolher o destino no susto, chegar lá e inventar um motivo para aquela viagem existir.

Adotar um gato só porque ele olhou para você como se tivesse te escolhido primeiro.

Plantar uma árvore e prometer visitar ela todos os anos, mesmo que a vida ficasse corrida, mesmo que os dias ficassem adultos demais.

Ver a aurora boreal, ou pelo menos fingir que vimos, quando o céu de algum lugar distante pintasse um verde estranho sobre nossas cabeças e você dissesse: “olha, parece um sonho que vazou”.

Fazer um piquenique dentro da sala em um dia de chuva, com cobertor no chão, comida espalhada, gatos curiosos, e uma música antiga tocando baixo, como se o mundo tivesse diminuído só para caber dentro de casa.

E talvez, nessa lista, tivesse uma regra secreta: toda loucura precisaria terminar com uma história para contar aos nossos filhos.

Três pequenos mundos

Porque sim… nesse “e se”, Laura, havia filhos.

Três.

Três pequenos mundos correndo pela casa, cada um com um universo inteiro dentro dos olhos.

O primeiro talvez tivesse sua doçura. Aquela sensibilidade rara de quem percebe quando alguém está triste antes mesmo de ouvir uma palavra. Talvez ele encostasse a cabeça no seu ombro sem pedir nada, só para ficar perto. Talvez herdasse de você esse jeito de transformar cuidado em linguagem.

A segunda talvez fosse fogo. Uma menina de joelhos ralados, cabelo bagunçado, coragem demais no corpo pequeno. Daquelas que sobem em árvore, inventam expedições no quintal e fazem perguntas que deixam os adultos sem resposta. Talvez ela dissesse que queria ser astronauta, veterinária, bailarina e dona de uma cafeteria para gatos, tudo na mesma semana. E você, com os olhos brilhando, não cortaria as asas dela. Você apenas diria: “então vamos começar pelo primeiro planeta”.

E o terceiro… ah, o terceiro talvez fosse aquele tipo de criança que chega depois para ensinar a família a desacelerar. Um menino ou menina de riso fácil, mãos pequenas sempre procurando as suas, como se soubesse que você nasceu com um tipo de colo que cura o mundo. Talvez fosse o mais grudado em você. Talvez te chamasse mil vezes por dia: “mamãe, olha isso”, “mamãe, vem cá”, “mamãe, fica comigo”.

E cada “mamãe” atravessaria você como música.

Porque nesse futuro, Laura Luísa, seu maior sonho não seria apenas uma ideia bonita guardada no peito. Ele teria cheiro de cabelo infantil depois do banho. Teria o peso de um corpo pequeno dormindo no seu colo. Teria leite derramado na mesa, brinquedos no corredor, desenhos tortos colados na geladeira, noites mal dormidas, febres inesperadas, perguntas impossíveis, abraços apertados, pequenas mãos segurando seus dedos como se você fosse o lugar mais seguro do planeta.

O sonho que ganha colo

Você seria mãe.

Não uma mãe perfeita — porque mães perfeitas não existem e nem precisam existir.

Você seria mãe de verdade.

Daquelas que erram e aprende. Que chora escondida no banheiro quando o cansaço aperta, mas volta para o quarto com uma força que ninguém sabe de onde vem. Que coloca a mão na testa do filho e parece medir não só a temperatura, mas o universo inteiro. Que canta baixo mesmo sem saber a letra. Que vira muralha quando o mundo ameaça. Que vira ninho quando a criança precisa pousar.

E eu imagino que, nesse futuro, haveria dias em que eu te encontraria parada na porta do quarto, olhando nossos filhos dormirem.

Você em silêncio.

A casa finalmente quieta.

Os gatos andando como sombras macias pelo corredor.

Uma luz amarela de abajur desenhando seu rosto.

E eu não diria nada de imediato, porque há cenas que não devem ser quebradas por palavras. Eu apenas ficaria ali, ao seu lado, olhando o mesmo milagre.

Talvez você sussurrasse:

“Eu sonhei com isso.”

E talvez eu respondesse:

“Eu sei.”

Não como quem ouviu uma frase. Mas como quem viu esse sonho morar em você desde antes dele ter nome.

Os guardiões peludos

E se a nossa casa tivesse gatos?

Não um. Vários. Porque em algum momento perderíamos o controle.

Um gato branco, metido a rei, que escolheria dormir exatamente no meu travesseiro e me olharia com desprezo quando eu tentasse tirá-lo.

Uma gata cinza, elegante, que só obedeceria você e fingiria não gostar das crianças, mas dormiria ao lado delas quando estivessem doentes.

Um filhote laranja, completamente maluco, que derrubaria plantas, entraria em caixas, roubaria comida e seria acusado injustamente de todos os crimes da casa — mesmo quando fosse culpado.

E teria aquele gato mais quieto, mais velho, que apareceria um dia na varanda, magro, desconfiado, com os olhos cansados de quem já viu demais. Você diria: “só vamos dar comida hoje”. E eu já saberia, no mesmo segundo, que ele acabaria tendo nome, caminha, coleira, consulta no veterinário e lugar definitivo no sofá.

Porque você teria esse perigo bonito: o de transformar abandono em lar.

E talvez fosse isso que tornasse tudo tão claro. O modo como você olharia para uma criança, para um gato, para uma flor quase morrendo no vaso, para uma pessoa cansada da vida… como se dissesse sem dizer: “ainda dá para cuidar”.

Mapas, malas e céu

E se o futuro tivesse viagens?

Muitas.

Algumas planejadas, com malas organizadas, documentos separados, roteiro salvo no celular, reserva feita, câmera carregada.

Outras completamente caóticas.

Nós chegando atrasados no aeroporto, eu puxando duas malas, você com uma criança no colo, outra perguntando se avião tem buzina, a terceira querendo saber se nuvem é feita de algodão-doce. Um dos gatos ficando com alguém de confiança, e você ligando por vídeo só para ver se ele estava bem, como se fosse possível um gato dizer: “sim, humana, estou administrando sua ausência”.

E então o avião subindo.

A cidade ficando pequena.

As luzes virando constelações no chão.

Você olhando pela janela com aquele silêncio de quem sente demais.

Eu olhando para você e pensando, nesse futuro hipotético, que algumas paisagens ficam menores quando comparadas ao rosto de alguém vivendo um sonho.

Veríamos praias de água clara, onde nossos filhos correriam gritando como se o mar fosse uma criatura viva chamando pelo nome deles.

Veríamos montanhas frias, onde você tentaria aquecer as mãos no meu casaco e reclamaria do vento, mas ainda assim sorriria para cada foto.

Veríamos cidades antigas, ruas de pedra, igrejas, pontes, feiras, museus, mercados cheios de frutas coloridas e temperos que perfumariam o ar como se o mundo tivesse sido cozinhado lentamente por uma avó invisível.

E em algum lugar, talvez numa cidade pequena da Europa, você pararia diante de uma vitrine cheia de roupinhas infantis feitas à mão. Mesmo que nossos filhos já estivessem maiores, você tocaria o vidro com a ponta dos dedos e diria:

“Olha que coisa linda.”

E eu entenderia que a maternidade, em você, não seria apenas uma fase. Seria uma parte profunda da sua alma. Uma fonte que não seca. Um jeito de olhar para o mundo procurando o que precisa ser protegido.

Quando a vida pesa

Mas esse futuro não seria feito só de cenas bonitas.

Não.

Se fosse apenas bonito, não seria vida. Seria propaganda.

Nesse “e se”, também haveria dias difíceis.

Dias em que a casa pareceria pequena demais para tantos problemas. Dias em que o dinheiro exigiria conversa séria. Dias em que o cansaço deixaria a paciência curta. Dias em que um filho adoeceria e a madrugada ficaria comprida como um corredor sem luz. Dias em que você se sentiria insuficiente, mesmo fazendo tudo. Dias em que eu também falharia, não por falta de vontade, mas por ser humano. Dias em que o mundo lá fora bateria forte na porta.

E é nessa parte que talvez o futuro precisasse ser mais sincero.

Porque estar ao lado de alguém nos dias claros é fácil. Difícil é continuar quando a tempestade tira a beleza da paisagem.

Então, nesse futuro, eu me imagino ficando.

Não ficando como quem não tem para onde ir.

Ficando como quem escolhe.

Quando você estivesse cansada, eu seguraria a casa por algumas horas para você lembrar que também é gente, não só mãe, não só força, não só colo para todo mundo. Eu colocaria as crianças para dormir, mesmo inventando histórias sem pé nem cabeça sobre dragões vegetarianos e gatos astronautas. Eu lavaria a louça de madrugada, talvez reclamando baixo, mas lavaria. Eu aprenderia os detalhes que importam: o remédio certo, o horário da consulta, o desenho favorito de cada filho, o jeito que você gosta do café, o silêncio que você precisa quando o dia pesa.

Quando o medo viesse, eu não tentaria diminuir sua dor com frases prontas. Eu sentaria perto. Colocaria minha mão sobre a sua. Seria presença. Porque às vezes o porto seguro não é quem resolve o mar. É quem não deixa o barco afundar sozinho.

E quando eu estivesse quebrado também, porque homens também quebram mesmo quando fingem ser muralha, talvez você percebesse. Talvez você chegasse sem fazer alarde, colocasse sua mão no meu rosto e dissesse:

“Ei. Eu estou aqui.”

E nesse “eu estou aqui” caberia mais amor do que em mil discursos.

Talvez fosse assim que nós atravessaríamos os anos: não como duas pessoas perfeitas, mas como duas pessoas dispostas a consertar a ponte sempre que ela ameaçasse cair.

A lista das loucuras

E haveria as aventuras.

Ah, as aventuras.

A primeira grande loucura talvez fosse o paraquedas.

Você dizendo que queria fazer, mas andando de um lado para o outro como se seu corpo já estivesse tentando desistir antes de começar. Eu tentando bancar o corajoso, mas sentindo meu estômago virar um bicho selvagem dentro de mim. O instrutor explicando tudo, e nós dois fingindo entender, quando na verdade só pensávamos: “por que exatamente achamos isso uma boa ideia?”

O avião pequeno subiria fazendo barulho. A porta abriria lá em cima. O vento entraria como uma fera. O mundo lá embaixo pareceria uma pintura distante.

Você olharia para mim.

Eu olharia para você.

E por um segundo, antes do salto, não existiria passado, boleto, medo, obrigação, mensagem não respondida, dor antiga, cicatriz, trauma, expectativa. Só existiria aquele absurdo maravilhoso: dois seres humanos prestes a cair do céu por escolha própria.

E então o salto.

O corpo despencando.

O vento arrancando qualquer pensamento inútil.

O céu gritando azul.

A terra vindo devagar e rápido ao mesmo tempo.

O coração batendo como tambor de guerra.

E no meio daquela queda, talvez eu entendesse algo: algumas pessoas não entram na nossa vida para nos prender ao chão. Algumas aparecem para nos lembrar que ainda sabemos voar, mesmo caindo.

Quando pousássemos, você talvez risse daquele jeito que não cabe no rosto. Riso nervoso, livre, vivo. Um riso que faria o mundo parecer recém-criado.

E eu diria:

“Uma vez. Só uma vez.”

E você responderia:

“Mentira. Talvez mais uma.”

Porque no fundo nós saberíamos: certas loucuras viciam não pelo perigo, mas pela memória que deixam na pele.

Outra loucura seria uma viagem de carro sem destino exato.

Nós, as crianças, uma playlist estranha, lanches demais, malas demais, um mapa aberto só por charme, porque ninguém mais usa mapa de papel, mas você teria comprado um para tornar tudo mais cinematográfico.

Os filhos brigariam no banco de trás por causa de espaço, brinquedo, janela, música, respiração. Um diria: “ele está encostando em mim”. O outro responderia: “não estou”. A terceira pediria para parar porque precisava fazer xixi, mesmo tendo dito dez minutos antes que não precisava.

E você olharia para mim com aquela expressão de mãe à beira do colapso.

Eu olharia para frente e diria, sério:

“Isso vai virar uma lembrança linda.”

E você responderia:

“Agora não está parecendo.”

Mas anos depois estaria.

Porque a memória tem esse truque: ela passa verniz dourado até nos caos que a gente quase não suportou.

Haveria também loucuras pequenas.

Fazer bolo às duas da manhã porque um dos filhos sonhou com chocolate.

Comprar tinta e pintar uma parede da casa sem saber direito o que estávamos fazendo.

Acampar no quintal, mesmo tendo cama a poucos metros, só para as crianças acreditarem que viver é mais importante que fazer sentido.

Montar uma árvore de Natal torta, com gato derrubando bolinha e criança colocando enfeite tudo do mesmo lado.

Criar uma tradição de domingo: churrasco, música, cheiro de carne na brasa, vinagrete, pão de alho, arroz, risada alta, gente chegando, criança correndo, gato fugindo do barulho e depois voltando para pedir comida.

E nesse futuro, os domingos seriam quase sagrados.

A casa cheia.

O sol entrando pelas frestas das árvores.

O cheiro da brasa subindo e se misturando com perfume de roupa limpa, protetor solar, café passado, tempero, infância.

Você atravessando a varanda com uma travessa nas mãos, cabelo preso de qualquer jeito, rosto levemente suado, mas com uma beleza que não dependeria de produção nenhuma. Uma beleza de mulher vivendo. Mulher inteira. Mulher que virou casa, raiz, riso, mãe, abrigo, tempestade e calmaria.

Eu estaria perto da churrasqueira, fingindo domínio absoluto sobre o ponto da carne, enquanto algum tio daria palpite, alguma criança pediria linguiça antes da hora, e alguém colocaria uma música que todos fingiriam odiar até começarem a cantar.

Nossos filhos cresceriam.

Devagar e rápido.

Um dia, sem avisar, as vozes mudariam. Os brinquedos sumiriam do chão. Os desenhos na geladeira seriam substituídos por provas, fotos, bilhetes, horários. A casa ficaria mais silenciosa em alguns momentos, e você talvez sentisse saudade da bagunça que um dia pediu para acabar.

O primeiro filho talvez chegasse em casa dizendo que gostava de alguém. Você tentaria agir naturalmente, mas seus olhos entregariam emoção, medo e ternura ao mesmo tempo.

A segunda talvez quisesse viajar sozinha pela primeira vez. Eu faria mil perguntas práticas. Você faria perguntas emocionais. Ela reviraria os olhos, dizendo que nós exagerávamos. E nós exageraríamos mesmo, porque amar também é imaginar perigos que talvez nem existam.

O terceiro talvez ainda sentasse perto de você no sofá, mesmo já grande, e colocasse a cabeça no seu ombro como fazia quando era pequeno. E nesse instante você ficaria imóvel, quase sem respirar, com medo de que qualquer movimento acabasse com aquele presente.

E eu veria tudo.

Veria você sendo mãe de bebês, depois de crianças, depois de adolescentes, depois de adultos. Veria sua maternidade mudar de forma, mas não de essência. Primeiro você carregaria no colo. Depois carregaria em oração. Primeiro ensinaria a andar. Depois aprenderia a soltar. Primeiro escolheria a roupa. Depois respeitaria escolhas. Primeiro protegeria do tombo. Depois estaria lá quando a vida derrubasse.

E talvez esse fosse um dos seus maiores atos de amor: entender que filhos nascem da gente, mas não são nossos objetos. São mundos que passam por nossa casa antes de pertencerem ao próprio caminho.

Nesse futuro, eu também te veria envelhecer.

E digo isso como quem fala de uma coisa bonita.

Porque envelhecer ao lado de alguém, quando a vida foi vivida de verdade, não é perder beleza. É ganhar história no rosto.

Talvez seu sorriso ficasse mais calmo. Talvez seus cabelos ganhassem fios de prata, e você reclamasse deles no espelho enquanto eu dissesse que ficavam bonitos. Você talvez não acreditasse, e eu talvez repetisse mesmo assim.

Talvez minhas mãos ficassem mais marcadas. Talvez meu corpo já não tivesse a mesma pressa. Talvez nossos passos fossem mais lentos, mas nossa cumplicidade mais rápida. Bastaria um olhar para entender o que antes exigia conversa.

A varanda do fim da vida

E então chegaria aquele dia.

O dia da varanda.

Eu imagino assim:

Um fim de tarde dourado, daqueles em que o céu parece ter sido pintado com mel, laranja e uma tristeza bonita que ninguém sabe explicar. A casa cheia de vozes. O churrasco acontecendo no quintal. Nossos filhos adultos conversando, rindo, cuidando dos próprios filhos. Sim, talvez netos. Pequenos seres correndo pela grama, repetindo a bagunça de outros tempos como se a vida tivesse decidido fazer eco.

Um gato velho dormindo numa cadeira, dono absoluto da casa.

Outro gato mais novo perseguindo alguma coisa invisível.

A mesa cheia. Pratos, copos, frutas, farofa, salada, pão, restos de infância misturados com presente.

Você sentada ao meu lado na varanda.

Uma manta leve sobre suas pernas.

Seus olhos acompanhando a família com uma calma imensa.

E talvez, nesse futuro distante, ninguém percebesse a grandeza daquele momento. Porque as coisas mais sagradas da vida às vezes parecem simples para quem está distraído.

Mas eu perceberia.

Eu olharia para você.

Veria a menina que um dia sonhou ser mãe.

Veria a mulher que atravessou noites, medos, partos, febres, viagens, risos, contas, mudanças, despedidas, recomeços.

Veria a amiga que um dia foi apenas uma possibilidade.

Veria a mãe dos nossos três filhos naquele “e se”.

Veria a mulher que, no futuro, eu teria amado não como quem ama uma ideia perfeita, mas como quem escolhe uma pessoa inteira. Com luz e sombra. Com doçura e tempestade. Com qualidades visíveis e profundezas que só o tempo revela.

Porque amar suas qualidades, Laura, seria fácil. Sua doçura, seu jeito, sua beleza, sua vontade de ser mãe, sua sensibilidade… isso seria apenas a ponta do iceberg.

No futuro desse “e se”, amar de verdade seria conhecer também seus dias difíceis e ainda querer ficar. Seria ver suas inseguranças sem usá-las contra você. Seria aprender seu silêncio. Seria respeitar seu tempo. Seria cuidar sem sufocar. Seria ser porto, não prisão. Seria entender que até uma mulher forte precisa de um lugar onde possa descansar sem precisar provar nada.

E talvez você olhasse para mim naquela varanda e dissesse:

“Você lembra da nossa lista?”

Eu riria.

“Qual delas?”

“A lista das coisas loucas para fazer uma vez.”

E então nós lembraríamos.

O paraquedas.

O banho de mar de roupa.

A viagem sem destino.

O gato que era só por uma noite e ficou por quinze anos.

A dança ridícula na praça.

O piquenique na sala.

A vez em que nos perdemos e encontramos a melhor comida da viagem.

A árvore que plantamos e que agora estaria enorme, fazendo sombra sobre parte do quintal, como se também tivesse envelhecido conosco.

E talvez, em silêncio, nós entendêssemos que a maior loucura não foi nenhuma dessas.

A maior loucura teria sido construir uma vida.

Porque pular de um avião exige coragem por alguns minutos.

Mas construir uma família exige coragem todos os dias.

Exige escolher a mesma pessoa quando a rotina tenta apagar o encanto.

Exige pedir perdão.

Exige rir no caos.

Exige segurar a mão no hospital.

Exige comemorar vitórias pequenas.

Exige continuar regando o amor quando ninguém está vendo.

Exige aceitar que o futuro não vem pronto. Ele nasce das escolhas miúdas, repetidas, imperfeitas, feitas no meio da pressa, do medo, do cansaço e da esperança.

E nesse “e se”, Laura Luísa, eu estaria ao seu lado.

Nos dias em que o mundo aplaudisse você.

E nos dias em que o mundo esquecesse de perguntar se você estava bem.

Eu estaria ao seu lado quando você se sentisse linda.

E também quando duvidasse disso.

Ao seu lado quando nossos filhos chamassem por você como se você fosse o centro do universo.

E também quando o silêncio da casa, mais tarde, doesse um pouco.

Ao seu lado nas viagens, nas loucuras, nas fotografias, nas malas abertas, nos aeroportos, nos cafés frios, nos domingos de churrasco, nas noites sem dormir, nas manhãs de recomeço.

Ao seu lado não como herói impecável, mas como homem disposto.

Disposto a aprender.

Disposto a proteger.

Disposto a construir.

Disposto a ser casa quando a vida parecesse rua demais.

E talvez tudo isso nunca passe de um “e se”.

Talvez seja apenas uma história bonita, uma janela aberta por alguns minutos para um futuro que não prometeu existir.

Mas ainda assim… que coisa estranha e linda é imaginar.

Porque imaginar não obriga o destino.

Só permite que a alma veja uma possibilidade e pergunte, baixinho, se aquilo não seria bonito demais para ser ignorado.

Então, Laura Luísa, se um dia você fechar os olhos e caminhar por esse futuro comigo, talvez veja uma casa cheia de vida. Três filhos. Gatos espalhados como pequenos guardiões peludos. Malas marcadas por viagens. Fotos tortas nas paredes. Uma lista de loucuras cumpridas. Uma árvore crescida no quintal. Uma varanda no fim da vida. Um churrasco em um dia lindo. A família inteira rindo ao fundo. E nós dois ali, mais velhos, mais calmos, olhando para tudo aquilo como quem finalmente entende que alguns sonhos não fazem barulho quando chegam.

Eles apenas sentam ao nosso lado.

Seguram nossa mão.

E ficam.

A pergunta

Então me diz…

Como é ver o futuro, existindo nós?

Como é ver o futuro, existindo nós? pergunta final